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Criando espaços de refúgio

Como um detentor da tradição da mente, Chagdud Tulku Rinpoche sempre se preocupava com a sabedoria – e tijolos, construções e templos sempre ficaram em segundo plano. Sua aspiração era a de transmitir os grandes ensinamentos do darma àqueles que tinham afinidade, àqueles que tinham uma conexão interdependente com a tradição de sabedoria, e plantar a semente de liberação na mente dos que pudessem ser beneficiados. A fim de fazer isso, a intenção iluminada de Rinpoche manifestou-se de diversas maneiras: criando ambientes sagrados, criando liberação pela visão, tanto para budistas como para não-budistas.

Suas aspirações incluíam o Centro de retiro do Odsal Ling, em Cotia (SP), onde, em uma de suas visitas, ele determinou a localização exata para a construção do templo.

Rinpoche não administrou a construção, como ele fez com o Khadro Ling ou com o Rigdzin Ling, mas ele indicou o local do templo, sabendo que eu teria que trazê-lo à fruição. Não eu sozinha, naturalmente, mas que eu de certa forma ajudaria a todos a ir adiante com a idéia. A sanga teria que trabalhar junta como os braços e pernas do lama.

E então, como os braços e as pernas do Rinpoche, nós manifestamos sua visão, manifestamos esse espaço sagrado. Eu penso nesse lugar quase como um portal ou algo assim, um lugar suave onde as pessoas podem se reunir, onde o seu coração pode se abrir.

É para isso que esses lugares sagrados existem, quer seja o Khadro Ling ou ou Odsal Ling ou o Rigdzin Ling ou ainda as terras de Jigme Rinpoche. Qualquer um desses locais que os lamas fazem se manifestar são lugares de refúgio, ambientes de prática, um lugar suave onde você pode experimentar o sabor das bênçãos.

* Extraído de um podcast de Lama Tsering Everest

Seguindo adiante

Interrompidos pela impermanência... seguindo adiante
Agora, estamos construindo isso em São Paulo. É um pouco mais humilde, eu acredito, no sentido de que não sabemos exatamente como fazer tudo. Não somos tibetanos, mas fazemos tudo o que podemos de coração. Chagdud Rinpoche me deu apenas algumas poucas palavras de orientação sobre esta construção. Ele disse que era para ser feito da maneira tradicional, porque ele sabia que, originalmente, eu não planejava construí-lo tradicionalmente. Eu queria simplesmente criar um lugar prático. Estava pensando em madeira e vidro, algo bem zen, um lugar bonito com vista para o vale.

Rinpoche não me impediu, a princípio. Ele deixou que eu fizesse todo o projeto no papel para sua aprovação, e então, um dia, enquanto estávamos passando no corredor, Rinpoche resmungou algo e disse pra mim: “Você este tipo de erro fazer”. E eu disse: “O que, Rinpoche? Que erro fazer?”. E ele: “Você este tipo de erro fazer, não tradicional fazer.” *(Nota: tradução aproximada da maneira como Rinpoche falava em inglês).

Então eu soube que precisava construir o templo da maneira tradicional. De novo, refizemos os projetos, e Lama Norbu, que é meu magnífico manifestador, redesenhou tudo. (Rinpoche sempre disse que eu tinha o poder de apontar, mas Lama Norbu fazia a manifestação). Então recomeçamos o projeto e, mais tarde, mostramos para o Rinpoche, e ele aprovou o projeto do templo tradicional.

Mas fomos interrompidos pela impermanência, e tivemos que seguir adiante, sozinhos, juntamente com a sanga, tentando terminá-lo.

A sanga é extremamente prestativa e é muito tocante a maneira como ajuda – fazendo oferendas, ajudando com as próprias mãos, fazendo os trabalhos artísticos. O projeto é de de todos nós – não só meu ou do Lama Norbu. É realmente a sanga, o corpo da intenção de Rinpoche, que manifesta este templo.

Não é um prédio pequeno. Até que é grande, já que eu decidi tentar incluir o refeitório, a cozinha, os dormitórios e outros cômodos, todos em um mesmo prédio, porque é menos caro dessa forma. Então parece um pouco grande, embora a sala de meditação em si é um terço do tamanho do Khadro Ling – para aqueles que estiveram lá, sabem o que quero dizer. Creio que sentarão confortavelmente 200 pessoas – 250, apertadas.

Agora, a “casca” básica do prédio está concluída e ainda estamos trabalhando em algumas coisas como a escadaria da entrada, que tem sido realmente um grande desafio. Na verdade, não sabíamos como construir uma escadaria e tivemos que passar por uma série de problemas, como encontrar as pedras adequadas, transportá-las – 150 toneladas de pedras para a escadaria. Eu tenho sonhado com pedras. Há alguns desafios desses, de vez em quando.

Mas é muito animador, tudo está progredindo e, para mim, como a “apontadora”, parece que o templo está tentando se autoconstruir, embora isso não seja verdade, já que todos estão trabalhando arduamente nele.

* Extraído de um podcast de Lama Tsering Everest

Trabalho como caminho para a realização

A equipe de trabalhadores é maravilhosa. Lama Norbu tem me falado de um trabalhador em especial, chamado Mineiro (já que ele é de Minas). Ele adora trabalhar e canta o tempo todo. Ele me faz lembrar um cara da sanga, que fica feliz com seu trabalho – ele se regozija ao fazer seu trabalho. Nem sempre nos sentimos assim em relação ao trabalho, mas isso é uma das coisas sobre construir um templo ou fazer um projeto como esses: há regozijo em fazer o trabalho, há prazer em fazer aquela oferenda.

Você está trabalhando, você está suando, seus músculos estão indo um pouco além dos limites, mas há algo prazeroso no fato de que você está fazendo aquela oferenda, e está construindo esta grande mandala, que vai viver muito além de você – e que vai durar o tempo necessário para que quem quer que tenha conexão com o darma a veja, venha e ouça o gyaling, ouça o darma ali. Até mesmo para que faça apenas uma prostração: que maravilha alguém no futuro entrando nesta sala de meditação e fazendo uma prostração! Pense no carma que ela vai purificar, no mérito que vai acumular, pense na conexão com a iluminação.

E nisso existe regozijo, um deleite, uma completude com esta oferenda – e fico tocada pela sanga e por este cara chamado Mineiro. Ele nem mesmo é uma pessoa do darma, mas seu trabalho tem a energia do darma. Ele está ali apenas como um trabalhador comum. Até mesmo quando não tem um trabalho evidente para ser feito, ele arruma o que fazer: ele varre, limpa alguma coisa, melhora algum detalhe, e fico emocionada com isso –como Rinpoche gostaria disso! Uma coisa que aborrecia bastante o Rinpoche eram aquelas pessoas que iam trabalhar e só o que faziam era ficar por ali, segurando a pá nas mãos, sem fazer nada, conversando. Eles não só não trabalhavam, como atrapalhavam o trabalho dos outros. Rinpoche ficava perturbado com isso, já que essa pessoa não estava fazendo uma oferenda de verdade.

É fácil se perder nos elementos comuns do trabalho a ser feito e do tempo gasto para se fazer as coisas. Mas se você usar o caminho do trabalho como mérito inseparável da sabedoria – uau – este é um caminho que produz realização. Isto é o que Rinpoche nos ensinou – nós sempre trabalhamos, sempre fizemos projetos. E, você sabe, se você não estivesse fazendo este templo, você estaria fazendo alguma outra coisa, porque nós todos trabalhamos, todos nós precisamos trabalhar em algo. Então, por que não trabalhar em algo que cria essa interdependência positiva para os outros? Não quer dizer que você não precise trabalhar para sua família ou que não precise trabalhar para seu próprio sustento, mas por que não trabalhar em algo que faz sentido?

* Extraído de um podcast de Lama Tsering Everest

Fazendo chá para o lama

Há uma história sobre um homem tibetano. Ele era atendente de um lama, e você sabe como são os lamas, sempre vagando, de um lado para o outro, dando ensinamentos. Como atendente, ele tinha que fazer as malas para onde quer que eles fossem. E, sempre, no meio do caminho, tinham que parar para fazer chá. Ele tinha que descer as malas do iaque, tinha que encontrar algumas pedras, tinha que fazer o fogo, tinha que aquecer a água, tinha que colocar o chá na água, e então tinha que servir uma xícara de chá ao lama, e só então ele também tomava sua xícara de chá. Depois disso, ele tinha que empacotar tudo novamente, colocar no iaque e seguir viagem.

Então, um certo dia, ele ficou cansado e disse aolama: “Sabe, me cansei disso tudo. Só o que eu faço é tirar a mala de cima do iaque, preparar o fogo e então recolocar tudo de volta no lugar. Cansei.” E o lama disse: “OK, obrigado por tudo o que você fez até hoje e ok, tudo bem. Você não tem que continuar fazendo isso. Está ótimo.”

Então ele partiu. No caminho, chegou a hora do chá e lá estava ele: teve que descer a mala do iaque, desfazê-la, ir atrás das pedras, fazer ofogo, ir ao rio coletar água, ferver a água. Finalmente, ele pôs a erva na água e então tomou o chá. Depois que acabou, desmontou tudo, pôs tudo de volta no lombo do iaque e... de repente, ele viu a si mesmo, e disse: “Uau, eu tenho que fazer chá de qualquer jeito, por que então não fazer chá para o lama? Pelo menos, estou criando virtude.”

Este é um ensinamento sobre o trabalho no darma, porque você vai trabalhar de qualquer jeito. Tendo que trabalhar, por que não trabalhar em algo que realmente crie virtude, que seja realmente livre de propósitos egoístas? É um treinamento em generosidade. Se é uma oferenda que está fazendo, então realmente ofereça ao lama – realmente ofereça aos Budas e Bodisatvas, realmente ofereça a todos os seres sencientes qualquer força de benevolência que esteja presente e que beneficie os demais. Você oferece também àqueles que têm a mente poluída e intenções maldosas: que eles possam ser tocados por esta virtude e que possam ser suavizados, que possam ser preenchidos e que não prejudiquem mais ninguém. Esta é a razão para trabalhar, para fazer a oferenda.

Ainda que não estivéssemos construindo o templo, estaríamos fazendo alguma outra coisa.

“Junte-se a nós, venha, podemos fazer isso acontecer!”

Então, estamos construindo um templo e eu convido você a se regozijar com isso, e mais do que apenas se regozijar em sua mente, ponha sua energia nisso, tente, envolva-se. Não é que alguém esteja tentando se livrar do trabalho. Estou feliz em fazer o trabalho, todos estão felizes em fazer o trabalho – é que você também pode ficar. É criar um ambiente para que você também possa criar virtude, para que você também possa purificar carma, para você também criar as causas e condições para beneficiar as pessoas agora e no futuro.

Pediram-me para falar um pouco sobre esse projeto hoje e então eu convido você a participar, e também aproveito para mostrar um pouco da minha apreciação por todos vocês que estão envolvidos, quer seja por meio de suas contribuições, ou por seus trabalhos artísticos, ou por seus esforços no que quer que esteja fazendo –realmente agradeço a vocês e dedico o mérito.

Este é um convite: junte-se a nós, venha, podemos fazer isso acontecer! Um dia, tudo vai estar pronto e você, seus filhos, os filhos de seus filhos, eles olharão e dirão: “Olha o que nós fizemos, olhe o que o meu pai fez, olha o que meu avô fez”. Ainda que não seja da sua própria família, haverá alguém que olhará para isso e dirá: “Olhe, olhe o que eles fizeram por nós, que maravilhoso que possamos ter isso”.

* Extraído de um podcast de Lama Tsering Everest

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