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O momento mais importante da vida

Os ensinamentos budistas explicam que nascer significa que certamente iremos morrer. Podemos ter certeza disso. Não há exceções: seja jovem ou velho, rico ou pobre, poderoso ou insignificante, a morte é o grande equalizador. Até a morte de meu precioso professor, Chagdud Tulku Rinpoche, eu nunca tinha experimentado a perda de um ente querido. Em novembro último, entretanto, os ensinamentos da impermanência foram demonstrados da maneira mais profunda pela passagem do Rinpoche.

Rinpoche sempre disse: "O momento mais importante da sua vida é o momento da morte." Mas tendemos a discordar. A vida é tão importante que preferimos pensar na morte como algo distante. Infelizmente, as preocupações da vida diária nos consomem e, em função disso, não conseguimos nos preparar adequadamente para a morte. Rinpoche disse também: "Você pode dizer o nível de realização de uma pessoa pela maneira como ela morre." O momento da morte é a última oportunidade para a iluminação, mas quando somos tomados pelo medo e confusão, essa oportunidade é perdida. Ao longo da história, pessoas têm se voltado para os grandes mestres a fim de aprender como administrar a transição da morte com a sabedoria e habilidade necessárias. A passagem de Rinpoche foi uma amostra perfeita dessa maestria hábil na hora da morte.

Às vezes perguntavam ao Rinpoche: "Qual o propósito da vida?" Ele respondia sempre da mesma maneira: "O propósito da vida é se preparar para a morte." Fiel a esse ensinamento, Rinpoche ensinou cuidadosamente sobre a impermanência e a natureza ilusória da vida. Uma vez, durante um retiro nas montanhas, com vista para a costa da Califórnia, eu estava seguindo as instruções de Rinpoche sobre o reconhecimento da ilusão. "Isso é tudo impermanente. Isso tudo é uma ilusão. Isso também. E isso." Meus olhos se moviam sobre todas as coisas, extraindo delas a verdade ordinária e meu apego. Então meus olhos recaíram sobre Rinpoche... e chorei. Não conseguia suportar a idéia de sua impermanência. Ele viu as lágrimas e perguntou: "Garota tola, o que está fazendo?" Eu disse a ele: "Estou meditando sobre a impermanência e sobre a natureza ilusória da vida e estava indo tudo bem até eu olhar para você." E então perguntei: "Você não é impermanente, é?" Ele riu, uma risada tão vasta e aberta quanto o universo e disse: "Oh, sim, eu sou impermanente."

Rinpoche podia rir, mas eu só podia chorar. Rinpoche era detentor da maestria. 
Por isso ele era o professor e eu a aluna.

Obviamente eu tinha um grande apego ao Rinpoche. Depois de sua morte, pude sentar com seu corpo por muitos dias. Lá, sentado na postura, sua mente não estava confinada a seu corpo, nem separada dele. Rinpoche ainda estava me ensinando. Estado desperto não morre. Estado desperto não nasce. Estado desperto não é levado pelos ventos do carma. Todo o resto morre. Em seu estado de samadhi, ele provou sua realização dos ensinamentos a respeito da morte. Como Rinpoche dizia: "A prova está no momento da morte... No momento da morte, você saberá."

A cada minuto, a cada momento, toda a vez que minha mente se volta para o Rinpoche, ele não está ausente. A presença do estado desperto, que é a sua mente, é toda a mente. Não se foi. Reconhecendo a presença dessa essência, não sinto falta do Rinpoche. Mas quando me distraio e me desvio da essência, sinto falta dele. Sinto falta de telefonar e brincar com ele. Sinto falta de poder perguntar coisas tolas ou contar uma estória engraçada. Tais coisas, que em razão de meu apego à impermanência e à ilusão me enganaram antes, às vezes me enganam agora.

Ocasionalmente, quando ensino, ouço as palavras do Rinpoche no que digo. Sua generosidade incansável fez uma marca em mim. Ele queria que os seres se beneficiassem. Ele queria que eu me beneficiasse. Ele queria que eu trouxesse benefício aos outros. Todas as pessoas tocadas por Rinpoche receberam a inoculação de seu coração compassivo, trazendo profundo benefício para todos eles.

Grandes mestres como Rinpoche vêm ao nosso mundo de uma maneira diferente da nossa. Nós viemos empurrados de maneira indefesa pelo nosso carma. Eles vêm devido ao seu propósito compassivo. Quando eles partem, partem dessa maneira também. Muitos anos atrás, Rinpoche me disse: "Tsering La, por favor, não reze para minha longa vida, ao invés, reze para o que for melhor." Então, aos poucos, através dos anos, Rinpoche me preparou para sua morte com constantes ensinamentos, amor ilimitado e compaixão incansável. A duração da sua vida não era sua preocupação maior. Por volta de uma semana antes da sua morte, ele disse: "Agora é hora para um corpo de bebê."

Acredito que todos nós teremos um momento maravilhoso de compreensão do grande ensinamento da compaixão ilimitada, na aparição do que nós chamamos Tulkus. Quando encontrarmos o nascimento intencional do nosso amado Rinpoche, iremos entender profundamente que a morte também é impermanente e que o amor e a compaixão da iluminação sempre se manifestarão, de qualquer maneira, para beneficiar os seres.

CTR-Louie

KYE WA KUN TU YANG DAG
LA MA DANG
Que em todos os meus renascimentos eu possa
continuar inseparável do lama perfeito e

DREL MED CHHÖ KYI PAL LA LONG
KYOD CHING
usufruir o esplendor do dharma,

SA DANG LAM GYI YON TAN RAB
DZOG NAY
consumando completamente as qualidades dos
caminhos e estágios

PAL DAN LA MAI GO PHANG NYUR
THOB SHOG
e atingindo rapidamente o nível do glorioso lama.

© 2017 Chagdud Gonpa | Odsal Ling
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