Ground breaking Tara House
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Querida Sanga,

Depois de tantos anos servindo ao Rinpoche como digitadora de suas mensagens e responsável pela correção gramatical de sua fala para as cartas em inglês do Wind Horse, estou surpresa pela dificuldade em escrever esta carta. Não por falta do que dizer, mas por não saber por onde começar. O parinirvana de Rinpoche no dia 17 de novembro (de 2002), que também marcou nosso 23º aniversário de casamento, foi o apogeu de muitos de seus ensinamentos - sobre a impermanência, sobre a ilusão, a maestria meditativa no momento da morte, sobre Guru Ioga e, mais do que tudo, a respeito da natureza da mente.

Apesar de ter sido privilegiada por estar ao lado de Rinpoche durante sua transição física, muitas outras pessoas também receberam suas transmissões finais de forma igualmente poderosa e particular - a distância não teve a menor importância. Como vários membros da sanga dividiram comigo suas experiências, estou novamente maravilhada com o brilho penetrante da mente do grande mestre quando o estado desperto se liberta do frágil revestimento do corpo. Para mim, este se tornou o mais profundo ensinamento de Rinpoche, que infunde forte confiança diante da face da incerteza e da morte.

O Rinpoche permaneceu sentado em estado de meditação por mais de cinco dias depois de sua última respiração, sem quaisquer sinais de deterioração física, quando então foi levado do Brasil para o Nepal. Cerimônias foram conduzidas durante os 49 dias tradicionais, que se seguiram em seus centros de retiro perto de Parping, no Nepal; no Khadro Ling, no Brasil e no Rigdzin Ling, na Califórnia. Preces e oferendas de lamparinas foram realizadas em muitos outros centros, no Ocidente e Oriente, com o suporte das orações de muitos grandes lamas.

A perda do calor e da presença física do nosso amado mestre suscitou um sofrimento difícil de ser expresso adequadamente, e o cerimonial que se procedeu teve seu próprio poder de cura. Nós nos alegramos com o acúmulo de mérito, rezamos para que uma interdependência extremamente positiva fosse estabelecida para o próximo Chagdud Tulku, e pela continuidade das atividades da sanga do Chagdud Gonpa. Encantamos-nos com a lembrança do amor do Rinpoche pelas lamparinas e oferendas de tsog. O Rinpoche parecia palpavelmente presente.

S.Ema. Dzongsar Khyentse Rinpoche certa vez destacou a coragem de Rinpoche em ensinar aos ocidentais. Ele não deixou nada para trás - nem as visões mais elevadas, nem os detalhes do método, nem a ordenação daqueles que poderiam sustentar os outros por meio dos ensinamentos da linhagem, nem as iniciações àqueles que achou que poderiam praticar. Em suas transmissões ele correu riscos, às vezes ensinando além do nível de compreensão intelectual e realização meditativa de seus alunos, mas com fé que suas mentes poderiam amadurecer com o tempo. Quando eles se debatiam em dúvidas e confusões, ou quando se fixavam em algum nível inferior de prática, ele os encorajava com o famoso "Vamos lá, continuem!".

Os ensinamentos de Rinpoche sempre se apoiaram em pontos chaves como a boditchita, a impermanência e a natureza ilusória da existência. Mesmo àqueles alunos mais antigos que já tinham escutado os ensinamentos por muitas vezes ou às sofisticadas audiências que resistiam a eles, ele retornava a esses pontos com convicção e entusiasmo. Ele amava os ensinamentos básicos, que iluminava com suas maravilhosas histórias e personalidade radiante. Todos aqueles que levaram os ensinamentos de Rinpoche a sério - agora, milhares de pessoas - detêm as sementes da transformação e da liberação.

Numa ocasião, Rinpoche deu um ensinamento a um estudante de Trungpa Rinpoche após seu parinirvana. Disse que, após a passagem de um lama, os praticantes mantêm seus compromissos vajra com o professor ao sustentar os significados do Darma no mundo e ao ajudar os outros a terem acesso aos ensinamentos, para que também possam superar o sofrimento e alcançar a iluminação. No Nepal, conversei com Matthieu Ricard, cujo fomento às atividades de Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche tem sido extremamente inspirador. Quando lhe perguntei como produz tanto, ele respondeu que é movido por sua responsabilidade de não apenas prevenir a diminuição, mas também de propagar as atividades de Khyentse Rinpoche. "E eu não ouso perder tempo e oportunidade", adicionou.

Recentemente, algo que se tornou especialmente claro para mim é que Rinpoche mapeou grandes avenidas pelas quais seus lamas e estudantes podem incrementar seu desempenho na sustentação do precioso Darma, tornando-o acessível; isto inclui práticas de linhagem, traduções, trabalhos de arte, cerimônias e arquitetura sagrada. Todas essas atividades são interdependentes, todas surgem do coração do nosso precioso mestre e todas alcançam os dois benefícios, para si e para os outros. Tudo isso prepara arenas extraordinárias para domar e treinar a mente. Posso apenas maravilhar-me diante da riqueza do legado de Rinpoche e aspiro honrá-lo de todas as formas possíveis.

Chagud Khadro
Khadro Ling, Brasil - junho de 2003

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