"O carma é algo criado por nós,
e tudo o que é criado pode
ser alterado"
Entrevista de Lama Tsering Everest concedida ao site Vya Estelar (www.vyaestelar.com.br)

Vya Estelar - O que são e quais são os venenos da mente?
Lama Tsering - Os venenos da mente são divididos em três categorias
principais.
A primeira é o apego ou desejo, que inclui o ficar preso física ou
mentalmente
a pessoas, objetos e fenômenos. A segunda é a raiva, que significa rejeitar,
não querer, afastar algo de você. O terceiro é a ignorância, que significa
não
ter uma noção clara da vida, não compreender a natureza verdadeira das
coisas.
Estes venenos agem de maneira interdependente. O que ocorre é que, quando
não
temos uma visão real da vida, acabamos criando desejos e apegos. E quando
não
conseguimos o que queremos, criamos aversão e ficamos com raiva.
Os venenos da mente agem como toxinas, criando energias mentais negativas.
Estas
energias são expressas em nossas ações, palavras e pensamentos, causando um
sofrimento cíclico, em cadeia, que se repete infinitamente.
Vya Estelar - Existem 84.000 venenos na mente?
Lama Tsering - Sim. Eles são uma combinação dos três venenos principais,
sendo
que podemos adicionar a eles o orgulho e a inveja. Estas combinações vão
ficando cada vez mais sofisticadas e representam as diferentes formas
errôneas
com que nossa mente pode atuar.
Vya Estelar - A raiva seria o principal veneno da mente?
Lama Tsering - A raiva é o veneno mais grosseiro e o que traz as
conseqüências
mais terríveis, cruas e diretas. O desejo é mais sutil e, em nossa sociedade
atual, é até mesmo considerado uma coisa boa, apesar de trazer tanto
sofrimento. Mas o veneno fundamental, realmente, é a ignorância, é o não
reconhecimento da natureza verdadeira dos fenômenos. Não podemos dizer que a
ignorância seja o pior veneno, mas ele é o primeiro, o que dá origem a todos
os
outros.
Vya Estelar - Como fazer para eliminar a raiva ou domá-la?
Lama Tsering - Há várias formas para começar a lidar com nossos venenos
mentais.
A primeira coisa a ser feita é reeducar-nos, no sentido de identificar os
venenos em nossa própria mente, suas conseqüências e o que podemos esperar
deles. Parece óbvio dizer que temos que nos reeducar, mas não é. Por
exemplo,
achamos que é OK ficar com raiva quando alguém faz algo errado conosco, nos
fere, é injusto. E não é OK. A raiva é um veneno mental e produz
experiências
dolorosas para quem a sente, não importando se o motivo que a tenha criado
seja
"aparentemente justificável".
Você tem que ser educado para saber que não deve tomar veneno de rato, por
exemplo. Se você entender isso, vai saber que, se tomar veneno de rato, ainda
que o gosto seja doce, sofrerá um dano imenso.
Vya Estelar - Há um senso comum entre as pessoas de que devemos expressar
nossa
raiva, "pôr para fora". O Budismo acredita nisso de alguma forma?
Lama Tsering - Não, o Budismo não acredita nisso, porque os venenos da mente
agem como um bumerangue. Se você atirar sua raiva adiante, o que você vai
receber de volta é mais raiva. Nós não compreendemos que nossas ações,
palavras
e pensamentos são como bumerangues, e não como uma bola, que jogamos em
direção
a alguém e lá ela fica. O bumerangue é atirado adiante e ele volta.
Quando não entendemos essa regra básica, nos tornamos nossas próprias
vítimas e,
feridos e ignorantes, jogamos o bumerangue de volta, causando sofrimento
atrás
de sofrimento.
O Senhor Buda ensinou que é importante termos paciência, mesmo quando
momentos
difíceis acontecem, porque estes momentos são resultado de bumerangues
lançados
por nós mesmos, anteriormente. Se um bumerangue estiver voltando, aceite-o,
tenha paciência, deixe que ele caia. Não atire mais três ou quatro de volta,
porque eles também vão voltar.
Vya Estelar - É melhor "engolir" a raiva?
Lama Tsering - Melhor engolir do que cuspir de volta. Mas engolir também não
ajuda. Por isso, precisamos nos reeducar. Temos que refletir e contemplar as
conseqüências dos venenos mentais, para começamos a obter elementos para
lidar
com eles. No entanto, o que precisamos realmente é cortar esses venenos. E
isso
conseguimos fazer através da meditação.
Mas, enquanto não desenvolvermos estas técnicas de contemplação e meditação,
precisamos evitar a raiva. Se ainda não tivermos os meios hábeis para lidar
com
a situação, é melhor correr do que reagir. Ou talvez você deva segurar sua
respiração por um instante e esperar a raiva passar.
Quando você estiver um pouco mais treinado, talvez não precise correr nem
prender a respiração, e consiga converter a situação negativa em amor e
compaixão.
Talvez consiga transformar a raiva, lembrando-se de que todos querem ser
felizes,
e as pessoas fazem o que fazem porque acham que aquilo trará felicidade. Ao
lembrar-se disso, pode cultivar a compaixão e ver que você e aquela pessoa
não
são diferentes: você já agiu raivosamente antes porque achava que aquilo o
faria feliz. E, compassivo pelo fato de que aquela pessoa não sabe das
conseqüências que a raiva traz, você converte sua emoção negativa em emoções
positivas, como amor e compaixão.
E mais tarde, quando você já estiver ainda
mais treinado, poderá não apenas converter o negativo em positivo, mas
liberar
as emoções negativas em sua própria essência, cuja natureza é a perfeição.
Grandes mestres e praticantes lidam com sua raiva dessa forma. A raiva
ocorre,
mas ela é livre, assim como as nuvens, que ocorrem mas dançam livres no céu.
Vya Estelar - O que é a impermanência?
Lama Tsering - Encare sua vida como se fosse um banco no parque, em uma
tarde de
clima ameno. Você vai até lá passar algumas horas, sentado, aproveitando
tudo ao
máximo: a brisa fresca, os pássaros cantando, as borboletas, o sol batendo
no
rosto. Tudo aquilo dura pouco tempo e vai chegar ao fim. Por isso, você deve
aproveitar o momento e criar boas condições. Você não deve se apegar ao
banco.
Não tente colocar uma etiqueta nele com o seu nome, querendo mantê-lo para
você! Isso vai impedi-lo de sentir o prazer e a liberdade de estar lá,
simplesmente sentado. E se alguém se sentar com você, seja gentil,
tratando-a
com amor e compaixão. Não brigue com esta pessoa. Seu tempo é muito curto.
Vocês estão ali apenas de passagem.
Ao lembrarmos de que tudo na vida é impermanente e chega ao fim, podemos ser
generosos com ela, sabendo que provavelmente ela nunca pensa no fato de que
terá que deixar o banco em breve, assim como você. Todos nós queremos manter
as
coisas e não conseguimos. Temos que ter compaixão por elas, e por nós
mesmos.
Compreender a impermanência nos faz ricos: temos tudo neste momento e
podemos
ser generosos, abertos, decididos a fazer o que pudermos para beneficiar a
todos com o nosso amor, sem medo de perder.
Vya Estelar - É possível reduzir o carma?
Lama Tsering - Sim, o carma é purificável através da educação e da
meditação. O
carma é algo criado por nós, e tudo o que é criado pode ser alterado. Só o
que
está além da criação - como a natureza absoluta da nossa mente - não pode
ser
alterado.
Há duas formas de eliminar o carma negativo: uma delas é experienciar as
situações da vida sem rejeitá-las, e recebê-las com amor e compaixão,
transformando carma negativo em positivo; a outra forma é purificar o carma
negativo antes de vivenciá-lo, e ir além do carma, não importando se ele é
positivo ou negativo. Esta segunda maneira de abordar a questão é crucial,
mas
só pode acontecer depois de treinarmos nossa mente através de avançadas
técnicas de meditação.
De maneira mais imediata, a melhor coisa a ser feita é transformar carma
negativo em carma positivo. Mas precisamos ter em mente que produzir carma
positivo não é uma solução absoluta para nosso sofrimento. Porque todo
carma,
positivo ou negativo, é impermanente. Isso significa que, seja qual for o
resultado positivo que você crie, ele também vai mudar, mais cedo ou mais
tarde. É um ciclo: o que é positivo se transforma em negativo e o que é
negativo, em positivo. A única saída é obter a realização da iluminação e
tirar
você e sua mente deste sistema cíclico de existência.
Enquanto isso não ocorre, faça seu melhor e crie condições positivas para
suas
experiências futuras, aceitando o seu carma, vivendo-o da melhor forma
posssível e o purificando.
Vya Estelar - Como fazer para terminar um relacionamento com alguém com quem
não
combinamos muito, sem criar carma negativo e nem sofrimento?
Lama Tsering - Podemos dizer que a principal religião de nossa sociedade
atual é
o amor - nossas músicas, nossos filmes e nossos anseios são todos a respeito
de
relacionamentos - e, no entanto, nós nem ao menos sabemos o que é o amor. As
pessoas se preocupam muito com os relacionamentos mas, na verdade, elas se
preocupam mesmo é consigo mesmas. Elas querem ter um amor porque isso fará com
que elas se sintam bem.
E o Budismo traz um novo paradigma a este respeito: amar é querer que o
outro
seja feliz. Ao amar, devemos nos preocupamos com o bem-estar do outro e não
em
atender aos nossos interesses.
Se você está com uma pessoa, é por causa do carma. Enquanto estiver com ela,
você deve fazê-la o mais feliz possível. E se você deve terminar ou não o
relacionamento, vai depender se isso vai fazê-la mais feliz ou mais infeliz.
Sua preocupação não deve ter nada a ver com a sua própria felicidade. Se
você
tiver isto em mente, é mais provável que tome a decisão mais correta.
O relacionamento vai acabar de um jeito ou de outro. Lembre-se da
impermanência:
você e a outra pessoa não duram para sempre. O próprio relacionamento é
impermanente e vai acabar naturalmente, quando não houver mais carma entre
vocês. Então, aproveite o momento, e não se esqueça de pensar no bem-estar
dos
demais, mais do que no seu próprio. Isso é libertador.
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